Chacina do Jacarezinho: Um crime que não combate o crime

Nesta quinta-feira, 6 de maio, ocorreu na favela do Jacarezinho, zona norte do Rio de Janeiro, a segunda maior chacina da história do Estado, com 25 assassinados. Sim, existe uma maior, que ocorreu na Baixada Fluminense, em 2005.


 



Só que mais do que mortes, estamos falando de ruas destruídas, casas invadidas, pessoas presenciando um cenário de guerra. Chega ser irônico que a Polícia Civil defenda a necessidade da operação argumentando que traficantes do local estava atraindo crianças para o tráfico. Que se a polícia não tivesse agido que as crianças do local veriam os traficantes como ídolos.

Mas sinceramente o que vocês acham que a criança vai achar de uma polícia que entra na rua que ela brinca, na casa que ela vive, arrombando portas e matando outra pessoa no quarto que ela mora.

Não dá para ser ingênuo, se tem uma coisa que o Estado e as polícias definitivamente não se preocupam é com a cabeça e o futuro dessas crianças.

Longe de tudo isso é muito fácil achar que a Polícia precisa combater a bandidagem a qualquer custo. Mas se fosse na rua em que você mora, com a sua vida em perigo no meio do fogo cruzado ou dos seus filhos ou dos seus pais, se fosse o seu carro que fosse destruído, seus moveis que fossem quebrados, sua parede que ficasse furada de balas mesmo você não tendo qualquer ligação com o tráfico você ainda acharia válido?

Mas voltamos ao principal, a polícia não faz esse tipo de operação para combater bandidos. Pois historicamente isso é ineficaz. Isso ocorre para demonstrar uma força, muitas vezes por revanchismo de outros confrontos.

E a coletiva do comando da operação ontem isso deixa bem claro. Policiais defendendo a ação que resultou a morte de um policial e de 24 pessoas do Jacarezinho que eles apontam que são suspeitos. Mesmo vivendo em um país em que a legislação não permite a pena de morte.

Porém, se tem uma coisa que as policiais, especialmente do Rio de Janeiro, já rasgaram faz tempo, foi a Constituição. Seja a polícia oficial ou os que fazem parte da milícia, que atuam dentro das próprias leis.

Isso fica claro principalmente com o posicionamento ontem mesmo após o STF ter proibido operações nas favelas como as de ontem durante a Pandemia.

O que ocorreu ontem, tanto na chacina, quanto no discurso depois foi a subida de tom mais uma vez, foi mais uma vez a Polícia dizendo que não aceita decisão do judiciário, do ministério público, dos direitos humanos e de ninguém. Que não existe estado democrático de direito, nem direito a vida e nem nada. Conscientes de que eles nunca serão responsabilizados por suas ações.

Um "combate ao crime" ineficaz   


Mas aí você vai argumentar que a operação foi um sucesso porque matou bandidos e que não importa o que diga a legislação você apoia isso tipo de conduta. Mesmo afirmando isso sem sequer saber o nome dos assassinados e confiar puramente e simplesmente na versão dos policiais, ainda assim é preciso observar pontos importantes.

Este tipo de operação existe há décadas. Faz pouco mais de 10 anos que ocorreu uma mega operação com direito a até tanques do exército no Complexo do Alemão e até hoje absolutamente nenhum território do Rio de Janeiro eliminou o tráfico. A única coisa que ocorreu em algumas regiões foi trocar o tipo de bandido, variando de facção ou permitindo a entrada da milícia, que hoje também atua no tráfico de drogas em diversas áreas.

Portanto, para você que aplaude uma operação dessas, está aplaudindo uma operação que absolutamente não resolve nada. Mesmo que todos os assassinados ontem fosse bandidos, o tráfico trará outros e outros e outros. Sempre foi assim no Rio de Janeiro.

Porque a raiz do problema não está na favela. É ilusão, ignorância ou preconceito achar que quem comanda o tráfico de drogas está dentro de uma favela. É ignorância acreditar que o filho do pedreiro, do porteiro, do motorista, da empregada, falo isso para exemplificar que estou falando de um filho de um trabalhador normal vai entrar por tráfico, assumir a chefia da favela e acreditar que ele que tem todos os contatos.

Isso porque é preciso lembrar de um ponto chave. Não existe plantação de maconha dentro do Jacarezinho ou de qualquer outra favela carioca. Não existe produção de armas dentro do Jacarezinho ou de qualquer outra favela carioca. Portanto, se existe venda de drogas dentro das favelas e se existe pessoas armadas dentro da favela, definitivamente elas não surgiram de lá, elas chegaram até lá.

E como eu disse, não é uma pessoa de dentro da favela que cria contatos fora do país, organiza uma logística para que tudo isso chegue na favela e depois seja distribuído. São pessoas grandes, com muito dinheiro, para acionar toda esta logística, para molhar a mão de fiscais nas fronteiras, para garantir uma rota segura e que lucra alto com isso. Essas pessoas não estão nas favelas, elas estão aproveitando esse dinheiro e sem serem incomodadas. Talvez essas pessoas estejam até mesmo aplaudindo essas operações, talvez essas pessoas se dizem até contra as drogas, porque enquanto for ilegal e enquanto ela ver lideranças de favelas morrendo cedo sem expor os grandes chefes dessa engenharia, maiores as chances de saírem ilesos e ricos.

E vale lembrar que as duas maiores apreensões de armas da história do Brasil ocorreram sem que a polícia precisasse dar um tiro sequer. Uma foi em 2017, quando a Polícia apreendeu 60 fuzis no Aeroporto do Galerão e a outra em março de 2018, quando encontraram 117 fuzis em uma casa de um amigo de Ronnie Lessa, assassino de Marielle Franco.

Portanto, quando você ver uma operação como a de ontem. Você pode achar o que quiser, mas uma coisa eu te garanto, não foi para combater o crime. Assim como também te garanto que o crime jamais vai ser derrotado combatendo quem está na parte de baixo da pirâmide do crime organizado.

Quer que as crianças não sejam atraídas pelo tráfico, lute por educação, emprego e renda, três coisas que foram ignoradas no Brasil especialmente nos últimos dois anos.



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