A interferência da Ditadura Militar no futebol para chegar ao povo

Que a Ditadura Militar foi um período sombrio na história do Brasil quase todo mundo sabe. O que é pouco falado é como o regime atuou no futebol no período, que era a atração mais popular no país. Como mostrarei neste episódio, contando o envolvimento dos militares em diversas histórias, perseguições, intervenções e até estádios utilizados para tortura. 

Ditadura Militar e a seleção brasileira

Como já falei aqui em diversos episódios, tudo envolve política. Até no futebol tem muita política envolvida e em algumas épocas a proximidade é ainda maior. Foi o caso do período da Ditadura. 

A primeira interferência de impacto veio na seleção brasileira. Isso aconteceu principalmente porque o Brasil vinha de derrota na Copa de 66, a primeira com a Ditadura no poder. Enquanto o povo tinha na lembrança as duas conquistas ainda no período democrático, de 58 e 62.  

Com isso, internamente o regime não aceitava a derrota e para isso valia todo o tipo de interferência. Cada vez mais militares foram tomando conta a Confederação Brasileira de Desportos e controle sobre o que faziam e falavam era enorme. Tudo porquê a conquista esperada na Copa de 70 tinha que ser uma conquista dos militares e não dos jogadores. Desta forma, não seria aceito qualquer tipo de manifestação dos atletas contrários a Ditadura, como falaremos do caso de Tostão, e nem mesmo qualquer conflito de opinião sobre a escalação, o que resultou na demissão de João Saldanha, que também falaremos a seguir. 

Os militares também investiram forte em campanhas publicitárias para exaltarem o nacionalismo, com destaque para a música Pra Frente Brasil. Com a conquista no México, o regime então continuou buscando promover a vitória como uma conquista do Governo e o que ficou marcado nos jornais da época eram a imagem do Presidente Emilio Garrastazu Médici levantando a taça da Copa. 

Médici também usava o futebol para promover a sua própria imagem. Era comum ver o Presidente nos estádios, para passar uma imagem de um homem popular, enquanto por trás atuava como um possivelmente o ditador mais cruel da nossa história.

Ditadura e futebol

Ditadura Militar interfere no Brasileirão

A segunda grande interferência do regime foi na disputa o Campeonato Brasileiro. O torneio surgiu em 1971, substituindo as disputas anteriores Taça Roberto Gomes Pedrosa e Taça Brasil, que hoje os campeões também são considerados campeões brasileiros. 

Porém, o Presidente militar da época Emílio Garrastazu Médici enxergava no futebol uma forma de alcançar cada vez mais apoiadores e por isso colocou a disputa no Plano de Integração Nacional. Na prática isso significa que o Campeonato Brasileiro teria que chegar em cada mais lugares e para isso ocorrer era necessário inchar a disputa, para que cada vez mais Cidades e Estados fossem representados. 

Pedido então rapidamente atendido por João Havelange, que era o Presidente da Confederação Brasileira de Desportos. Desta forma, se o Brasileirão surge em 1971, com 20 equipes, cinco anos depois ele já contava com 54 participantes. Todos os Estados do país tinham pelo menos um representante da Liga. Este processo acabou se tornando famoso pelo lema “onde a Arena vai mal, mais um time no nacional”. A Arena era o partido dos militares na Ditadura. 

 Só que isso não parou por aí. Com o “Milagre econômico” desaparecendo no final da década de 70 e a miséria crescendo, os militares continuavam dando respostas com futebol e o Campeonato foi crescendo cada vez mais, chegando a ter 94 participantes na edição de 1979. O torneio ficou tão inchado que São Paulo e Santos até preferiram desistir de disputar a competição. 

Para ter cada vez mais clubes no seu controle, os militares então concediam empréstimos e perdoavam dívidas, algo muito mais fácil em um período que não existiam controle de gastos. 

Construção de estádios

E não foram só nos clubes que os militares colocam dinheiro em troca de popularidade. A Ditadura também investiu na construção ou ampliação de 52 estádios, todos com obras faraônicas, com custo elevado, rombos nos cofres, e muitos virando verdadeiros elefantes brancos. 

Só que na Ditadura, um estádio não era só palco para o futebol. O regime utilizou alguns pelo país para investigar e torturar opositores. Um dos mais usados para isso foi Caio Martins, em Niterói, que desde o golpe de 1964 foi usado como uma prisão da Ditadura e chamado até de “campo de concentração” por alguns que foram presos no local. No total foram mais de mil presos políticos no estádio, conforme depoimentos de vítimas e advogados na Comissão Nacional da Verdade. 

Resistência em campo

Só que existiu também o lado de resistência no futebol e que ficou marcado principalmente pela Democracia Corintiana. Na época, o Corinthians contava com muitos jogadores engajados politicamente, como Casagrande, Wladimir e Sócrates. O trio começou a luta buscando mais abertura política dentro do próprio clube, mas levava essas ideias para os torcedores que pressionavam também pela redemocratização no país. Sócrates, principalmente, era visto regularmente em atos pelo fim da Ditadura. 

Outro nome que usou seu sucesso em campo para fazer propaganda da necessidade de democracia. Sua principal característica era a comemoração com os punhos erguidos, em uma referência ao movimento dos Panteras Negras. 

Já outros tiveram que lidar com a opressão. Tostão era um crítico do regime, mas teve que parar ao receber uma ligação no qual falaram que se ele continuasse a fazer reclamações do governo não seria mais convocado. Já Nando, irmão de Zico, foi preso e torturado no Dops ao ser interrogado pela participação dele no Plano Nacional de Alfabetização de Paulo Freire, além da proximidade que tinha com uma prima que era colaboradora do MR-8, movimento contra a Ditadura. 

João Saldanha, por sua vez, era o técnico da seleção brasileira até as vésperas da Copa de 1970. No entanto, após ser cobrado pelo Presidente Médici, de que Dadá Maravilha tinha que ser convocado, o técnico respondeu que “Médici escalava o ministério e ele a seleção, então nem ele interferia na escolha do governo e nem o presidente deveria querer interferir na escalação”. Isso somado a alguns desgastes na comissão técnica resultou na demissão de João Saldanha. 

Na virada para os anos 80 a história então começa a mudar. A crise econômica no Brasil piora, os militares passam a não ter mais condições de fazer tantas intervenções no Brasileirão, nem financiar os clubes e com isso o Campeonato Brasileiro vai reduzindo de tamanho. 

 E para os que falam que não se pode levar o que acontece no futebol para o campo da política ou vice-versa, certamente não conhece a história. O fim da Ditadura foi marcado por diversas manifestações de clubes e torcedores.  

Um episódio clássico foi a final da Taça Guanabara de 1984, entre Flamengo e Fluminense. Ne ocasião, alguns jogadores do Fluminense declararam apoio a Maluf, candidato do PDS, herdeiro político da Arena, que era dos militares. O Presidente do Flamengo, George Helal, por sua vez, defendia Tancredo Neves. Em um tempo em que os gestores do clube ainda não se alinhavam a extrema-direita, como tem feito hoje.  

Já nas arquibancadas era unanimidade. Tanto rubro-negros, quanto tricolores escolheram Tancredo. A manifestação se repetiu em diversos outros estádios, principalmente com a torcida do Corinthians, que antes já pedia eleições Diretas. Isso não aconteceu, mas Tancredo derrotou Maluf e em 1985 tivemos o primeiro Presidente Cívil depois de 21 anos de Ditadura, que acabou sendo Sarney, devido a doença e morte de Tancredo.


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