Análise das eleições 2020 e expectativa para 2022

Finalizada as eleições municipais de 2020. Uma disputa que indicou uma mudança, mas que deixou mais perguntas do que respostas para 2022. O resultado para a esquerda em 2020 pode ser considerado melhor do que o esperado, embora não possa ser considerado exatamente bom. Só que houve ao menos um recuo do extremismo. 

Bolsonaro perdeu força

Começamos a análise falando de Jair Bolsonaro. Se em 2018, ele conseguiu dar a vitória a nomes totalmente desconhecidos como Romeu Zema, em Minas Gerais, e Wilson Witzel, no Rio de Janeiro, desta vez passou longe. Foram seis derrotas em seis tentativas nas capitais.

Só que o caso mais emblemático foi o de Celso Russomanno, que chegou a liderar as pesquisas em São Paulo, mas depois que colou a imagem em Bolsonaro despencou e ficou com apenas 10,50%, terminando a eleição na 4ª colocação. 

Outro fator que chama a atenção é a queda de Carlos Bolsonaro. Filho do Presidente e que inaugurou a modalidade de Vereador à distância, afinal, passa mais tempo em Brasília do que no Rio de Janeiro, ele teve uma queda de 35 mil votos em comparação com 2016. Foi de 106 mil para 71 mil. 

Foi no Rio também outro péssimo resultado para o Presidente, na derrota de Crivella que passou longe de se reeleger no Rio de Janeiro. 

Como ficará a direita?

E o cenário carioca que traz a primeira das perguntas que fica para a corrida eleitoral para 2022. Afinal, o DEM conseguiu ganhar quatro capitais, contando com o Rio. O partido que é liderado por Rodrigo Maia e que flerta para ter Luciano Huck como candidato ao lado de Sergio Moro tem tudo para ser o principal concorrente de Bolsonaro no campo da direita, ao lado do PSDB, que ao que tudo indica deve lançar Doria.  

E aí voltamos na avaliação do desempenho atual. Embora o extremismo da direita tenha perdido força nesta eleição, quem acabou se destacando foi a direita envergonhada, liderada por DEM e de partidos de centro como MDB, PP e PSD, que muitas vezes tentam se passar por centro-direita ou até centro, mas que atua contra avanços sociais e que com exceção de casos isolados costuma sempre se levantar contra a luta por direitos seja trabalhistas ou de igualdade.  

Outro partido deste campo, o PSDB, não teve um desempenho tão bom, perdendo cerca de 34% no número de prefeituras, embora tenha conseguido manter São Paulo.  

Boulos, Ciro ou Haddad, quem vai liderar a esquerda?

A capital paulista é outra que levanta dúvidas para a disputa de 2022, só que no campo da esquerda. Guilherme Boulos teve um excelente desempenho em São Paulo, fazendo uma grande campanha, dialogando com muita gente e virando votos. No entanto, resta saber se ele conseguirá repetir e ampliar este rendimento em uma eleição nacional, que o PSOL até aqui não demonstrou ter muita força. Embora agora terá também o cartaz de Belém, com Edmilson Rodrigues tendo sido eleito, o primeiro do PSOL em uma capital. 

Além de Boulos, a esquerda ainda tem dúvidas a respeito do PT, PC do B e PDT. O Partido dos trabalhadores não sangrou tanto nesta eleição, tendo perdido em números gerais, mas conquistando algumas cidades mais populosas, embora não tenha conseguido uma capital. Com isso, o PT mostrou que não perdeu, mas está tendo dificuldade de recuperar os votos que tinha na Era Lula e até o primeiro mandato de Dilma.  

Só que apesar disso, estamos falando de um partido que em uma eleição nacional costuma ter uma base fiel. Ou seja, exatamente o que falta o PSOL.  

E que falta ao PDT também, que foi o partido de esquerda com mais prefeituras conquistadas como já havia feito em 2016, mas que em 2018 não conseguiu sair dos 12%.  

E por fim tem o PC do B, que tem como principais nomes Flavio Dino, governador do Maranhão e Manuela D’avila, que não conseguiu se eleger em Porto Alegre.  

Resta saber como estes grupos vão dialogar nos próximos quatro anos, porque esta disputa deixou mais dúvidas do que respostas. A única certeza que mesmo após muitos ataques, a esquerda saiu fortalecida. Juntos, PSOL, PT, PDT, PC do B e PSB venceram em 800 municípios, fora os bons resultados nas disputas para as Câmara dos vereadores como falamos no episódio sobre o 1º turno. Com isso, certamente algum nome deste grupo estará no 2º turno da disputa Presidencial. 

Empresários e Igreja

E como falamos a direita também deixa dúvidas. Como será que se comportarão os empresários e ruralistas que apoiaram Bolsonaro em 2018. Será que se manterão fieis ao Bolsonarismo em 2022 após ver que isso perdeu força? 

E possivelmente após termos mais um ano desastroso economicamente já que temos desemprego recorde e o fim do auxilio em dezembro, além dos diversos conflitos diplomáticos que o Presidente e os filhos estão se metendo? 

E como ficará a Igreja? O grupo de Bispo Macedo jamais perdeu uma eleição, enquanto o de Silas Malafaia já rodou por Lula, Serra, Marina e Aécio. Ficarão com Bolsonaro se o barco estiver afundando? 

O fato é que mal comparando, é como se o Brasil tivesse evoluído em apenas dois anos da década de 60 para a de 90. Afinal, em 2018 vemos vencer um governo que exaltava tortura, criticava a nossa diversidade e ataca as minorias, tal como a ditadura nos anos 60 e 70, agora nesta eleição 2020 vimos a vitória de um grupo de direita mais moderada ou mais disfarçada, como nos anos 90 com PSDB, que fechava os olhos para os problemas sociais. Restará saber como ficará esta transformação em 2022. 

Representatividade

 Só que é preciso falar também em representatividade. Em diversas cidades espalhadas pelo Brasil tivemos as primeiras trans eleitas. Em Aracaju, Linda Brasil, do PSOL, teve 5.773 votos e foi a candidata mais votada da capital do Sergipe. Duda Salabert, do PDT, alcançou quase 32 mil votos e é a primeira trans a ocupar uma cadeira do legislativo de Belo Horizonte. Já em São Paulo, Erika Hilton, do PSL, também conseguiu se eleger vereadora de São Paulo.  Já em Curitiba tivemos a 1ª negra eleita vereadora na cidade. Trata-se da professora Caroline Dartora, do PT.  E em Salvador veio um feito histórico. Maria Marighella, neta de Carlos Marighella, assassinado pela Ditadura, foi eleita vereadora pelo PT. 

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