Revisionismo e negacionismo

Nos últimos anos, o revisionismo e o negacionismo tomaram conta de diversas áreas. Neste artigo falo das diferenças das duas questões e os motivos para o surgimento de cada um.

Os tipos de revisionismo

O Revisionismo tem dois caminhos. Um por um novo entendimento do fato, o revisionismo historiográfico. Um grande exemplo é que você de 30 anos ou mais aprendeu sobre “expansão do Império Romano” e “Invasões bárbaras”. Sendo que esta segunda parte foi trocada para “migrações dos povos germânicos”. A mudança tem como objetivo mostrar como que cada civilização contribuiu para a construção de um lugar comum e não retratar como a que um povo tinha direito a entrada em novos territórios e outro não.

Isso acontece principalmente devido a novos estudos e também uma nova visão sobre o fato. No Brasil, por exemplo, como já citei aqui, você aprendeu sobre Inconfidência Mineira. Um termo referente a um movimento de pessoas que faltaram com a fidelidade a coroa portuguesa. Afinal, a narrativa do acontecimento se deu em um período em que o Brasil era colônia de Portugal. Ou seja, o movimento era visto obviamente como um ataque aos portugueses. Já quando o Brasil vira República e expulsa a família imperial do país, não faz sentido entende-los como traidores, passando a divulgar então como Conjuração Mineira, que significa associação de indivíduos para um fim comum, uma aliança. Com isso, assume como um movimento brasileiro.

Outro motivo para o revisionismo historiográfico vem através das lutas sociais, como o feminismo, o movimento LGBT e o movimento negro, que também geram uma nova interpretação devido a uma novo entendimento da sociedade. Um caso que ganhou destaque recentemente gira em torno de Monteiro Lobato. Suas obras foram escritas entre as décadas de 20 e 40, em um período em que o Brasil tinha políticas claramente racistas e com projetos de embranquecimento da população. Com isso, seus textos passaram sem grandes contestações, ainda mais que boa parte de seu público-alvo era branco.


Hoje, embora o país ainda seja imensamente racista, é inaceitável ler que “Tia Nastácia trepou que nem uma macaca de carvão”, entre muitas outras expressões ou sendo sempre a única apresentada por sua cor, referida sempre como “a negra isso”, “a preta aquilo”.

Ideologia

Já o outro tipo de revisionismo é o revisionismo ideológico, para manipular dados e tentar culpabilizar um inimigo político ou valorizar um período em que um determinado um grupo apoie. Vemos o primeiro caso na tentativa de jogar o Nazismo para a esquerda. Algo que é consenso no Mundo todo e que sempre foi visto como de extrema-direita, tentou ser jogado para outro lado, para criminalizar a esquerda.


Já o segundo motivo, é visto, por exemplo, na defesa da Ditadura Militar ou até mesmo na Monarquia. Grupos que defendem qualquer um destes dois períodos tentam trazers novas interpretações, desvirtuando fatos aos próprios interesses. Um caso muito comum de se ouvir também é de negar a culpa dos portugueses na Escravidão, alegando que os próprios africanos já escravizavam e ignorando que os portugueses entraram na África, exploraram e traficaram. Este revisionismo tem como objetivo diminuir o movimento negro e ignorar a necessidade de reparação histórica.

E muito disso acontece por uma falha histórica do Brasil, que sempre optou por ser conciliador. Absolutamente ninguém pagou pelos mais de três séculos de Escravidão, assim como nenhum militar pagou pelos anos de tortura e repressão na Ditadura, diferente do que aconteceu na Argentina, por exemplo.

Negacionismo

Isso tudo é sem dúvidas preocupante, afinal, um determinado grupo no poder pode recontar a história de uma forma errada e que criará um entendimento em uma geração de algo que não foi exatamente daquele jeito. Só que o pior mesmo é o negacionismo, que tem crescido cada vez mais.
Pessoas duvidando do Aquecimento Global e da vacina ou até mesmo afirmando que a terra é plana. Existem até mesmo quem duvide de que houve o Holocausto.

Muito disso aconteceu por causa de produções, como Guias politicamente incorretos ou artigos, que mesmo sem nenhum estado, comprovação, conseguiram grandes compartilhamentos. E isso acontece pela necessidade de algumas pessoas se sentirem aceitas em um determinado grupo ou então para atacar o outro, muitas das vezes tentando tirar a credibilidade de cientistas, professores e outros estudiosos.    


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Fontes
O BÁRBARO COMO CONSTRUTO. UMA REDISCUSSÃO HISTORIOGRÁFICA DAS MIGRAÇÕES GERMÂNICAS À LUZ DOS CONCEITOS DE CULTURA, CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE Ronaldo Amaral1

“Negacionismos e Revisionismos: o conhecimento histórico sob ameaça”1 . (Síntese dos debates e posicionamentos surgidos no evento promovido pelo Departamento de História da FFLCH / USP – Universidade de São Paulo)