Luta contra o racismo chega ao revisionismo


As manifestações contra o racismo pelo mundo passaram a mirar um novo alvo, as estátuas. Tudo começou na Inglaterra quando derrubaram a do escravocrata Edward Colston, que fez a fortuna com o tráfico de escravos. Nos Estados Unidos, o foco foi nas de Cristóvão Colombo, com o argumento de que ele escravizou, mutilou e massacrou milhares de povos indígenas. Isso agora gera um debate também no Brasil e de fato no mínimo exige uma reflexão.

Revisão da história

A ideia de derrubada de monumentos se encaixa exatamente no revisionismo historiográfico, que citei aqui anteriormente. Muitas pessoas são contra, alegam que estatuas representam momentos significativos da história do país, mas é válido manter homenagens a personagens que foram responsáveis por matar milhares de pessoas?


Só que esse questionamento só existe porque infelizmente no Brasil e no Mundo, ser herói ou ser ofensivo depende não do feito, mas para quem foi feito. Partimos do exemplo da época do ataque dos Estados Unidos ao Iraque. O maior símbolo da invasão foi a derrubada da estátua de Saddam Hussein. Na época ninguém questionou se o ditador marcou história ou se o monumento tinha que ser mantido.

Monumentos no Brasil

Entre diversos monumentos que existe no Brasil, um deles é bem parecido com o de Edward Colston, na Inglaterra. Trata-se da estátua do português Joaquim Pereira Marinho, que fica em Salvador. Marinho ganhou toda a sua fortuna exatamente transportando africanos do Benin, do Togo, da Nigéria, Angola e Congo para serem escravizados no Brasil. Estima-se que ele trouxe 11.584 homens, mulheres e crianças. Algumas até mesmo após a Lei Eusébio de Queiroz, que proibia o tráfico. Fez uma fortuna com isso, morrendo deixando 8 mil contos de réis, o que seria equivalente a R$ 1 bilhão em valores atuais, além de 227 imóveis.

Acontece que toda a crueldade de Marinho foi “apagada” porque no fim da vida, ele fez algumas obras de caridade e fornecia crédito a comerciantes, algo similar ao que ocorreu com Colston na Inglaterra.

Outras homenagens que chamam a atenção são aos de Bandeirantes, como Anhanguera,  Borba-gato, Fernão Dias entre muitos outros. E isso acontece, como disse, porque no Brasil, quanto mais rico você for, maior a chance de ser visto como um herói, não importa a atrocidade que faça.

E isso resume bem os Bandeirantes, que foram tratados como responsáveis pela expansão do país para o centro, em busca de riquezas mineiras, porém, estes personagens da nossa história escravizaram cerca de 400 mil índios, além de matado outros milhares

Duque de Caxias é outro caso, homenageado dando nomes a diversas cidades pelo Brasil, ruas, além de monumentos em diversas regiões, a justificativa é que Luís Alves de Lima e Silva é um herói nacional por ter contido diversas revoluções e mantido o país unido. Só que Duque de Caxias era escravocrata e tinha verdadeiro desprezo por povos que fossem considerados inferior à elite. Além disso, o personagem que é tão reverenciado por todos os cantos do Brasil matou milhares de brasileiros em diversas regiões do país, sendo que boa parte apenas buscava melhores condições de vida ou até mesmo derrubar a monarquia, o que ocorreu, por exemplo, anos depois, através de Marechal Deodoro da Fonseca e dos militares.

Ou seja, mais uma vez, temos o caso de alguém que é homenageado porque protegia os interesses da elite e matou índios e negros.

Talvez o problema de o Brasil repetir sempre desastres do passado é exatamente esse histórico conciliador e de homenagens a ditadores, escravocratas e assassinos. Até quando, por exemplo, viveremos também em cidades ou ruas que carregam nomes desse tipo de pessoas. Parte da evolução é revisar e condenar erros do passado. É fundamental estudar para definir quem realmente deve ser visto como ídolo no Brasil, para que o povo não acabe acreditando em falsos mitos.


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